O primeiro título mundial do Brasil foi sacramentado com a goleada por 5 a 2 imposta sobre os mandantes suecos no Estádio Rasunda, em Estocolmo. A taça, porém, havia sido assegurada ainda nas primeiras horas da manhã daquele dia 29 de junho de 1958. Fruto da superstição que girava em torno da delegação comandada por Paulo Machado de Carvalho, empresário do ramo da comunicação que cuidou de todos detalhes da aventura brasileira na Europa. Temia-se pela chuva na hora do jogo, mas ela apareceu justamente durante a manhã. Enquanto os organizadores cobriam o gramado do Rasunda para preservar o gramado, Carvalho viu o primeiro contratempo do dia: a Seleção perdeu no sorteio o direito de enfrentar os suecos com a camisa amarela, o uniforme titular e cor também usada pelos mandantes.
Sem outra alternativa na bagagem, o dirigente deu a missão de encontrar um uniforme substituto ao massagista Mário Américo, que em uma das poucas lojas esportivas abertas encontradas, não titubeou ao comprar um jogo inteiro de camisas azuis.
A cor não era estranha aos brasileiros e a justificativa era a de se manter uma das cores oficias do uniforme (exceto o branco, aposentado oito anos antes, após a derrota do Mundial para o Uruguai em pleno Maracanã, sob a alegação extra-oficial de trazer mais sorte). Em uma operação de guerra, os jogadores não foram avisados e membros da delegação trocaram o almoço pela tarefa de arrancar o brasão da extinta Confederação Brasileira de Desportos para costurá-lo no novo fardamento, que de fábrica veio apenas com os números amarelos.
No vestiário, ao ser informado das novas camisas, até o técnico Vicente Feola temeu pelo pior. O abalo entre os jogadores foi maior que o esperado. Carvalho, então, manteve o tom sóbrio, pediu a palavra e incentivou o grupo alegando que estavam vestidos com a mesma cor do manto de Nossa Senhora de Aparecida, a padroeira do Brasil. Foi o primeiro passo para que a taça Jules Rimet ficasse mais próxima da América do Sul.
A Suécia não tinha uma excelente equipe, que fora criticada pela imprensa local durante toda a disputa. Mesmo assim, dois atletas experientes, que enfrentaram a Seleção no Mundial de 1950, na histórica goleada por 7 a 1, estariam em campo: o goleiro Svenson e o ponteiro Skoglund. O jogo, válido pelo quadrangular final daquela disputa, fora lembrado, alertando os mandantes do perigo sul-americano que estaria em campo. Mas os principais temores da equipe do técnico inglês George Raynor eram outros.
O Brasil não chegou à Suécia como favorito. Pelo contrário. Antes do embarque, a equipe acumulou um empate sem gols com o Paraguai no Pacaembu e uma derrota por 1 a 0 para o Flamengo em jogo-treino no Maracanã com cobrança de ingresso. O início também foi preocupante. Apesar de uma fácil vitória por 3 a 0 no fraco selecionado da Áustria, o empate sem gols com a Inglaterra - o primeiro em Copas do Mundo - na segunda rodada evidenciou os problemas. As mudanças vieram no que prometia ser o mais duro jogo brasileiro na competição até então: a União Soviética.
Pelé havia estreado na Seleção um ano antes, mas se apresentou à delegação que embarcaria à Copa com problemas no joelho. Estava sendo poupado, mas contra os soviéticos, os médicos o liberaram. E o escolhido para ser sacado foi Mazzola, de quem os dirigentes tinham receio do temor em tirar a perna em divididas, afinal estava vendido ao Milan. Uma reunião entre Carvalho, Feola, o preparador físico Paulo Amaral e líderes do elenco, entre eles o capitão Bellini, selou as outras duas mudanças que marcariam o time titular: Garrincha na vaga de Joel, outro criticado pela imprensa que foi à Europa, e Zito substituindo Dino Sani.
Feola apostava alto em Sani, talvez a grande decepção brasileira na Copa, e não gostava de Garrincha, segundo Nilton Santos reprovado antes do embarque em testes psicológicos. Teve que rever seus conceitos após a arrancada que chamou a atenção para a equipe. Vitória por 2 a 0 sobre os soviéticos, chamados de "comunistas". Nas quartas-de-final, novo êxito, por 1 a 0, sobre a retranqueira equipe de País de Gales, em jogo que Pelé marcou seu primeiro gol em Mundiais e, definitivamente, começou a ser respeitado como o Rei do Futebol.
O teste definitivo viera nas semifinais, diante de uma das maiores equipes da história das Copas: a seleção francesa liderada por Just Fontaine e Kopa. O primeiro marcou 13 gols no Mundial, recorde absoluto de artilharia em uma única edição de Copa, mantido até hoje. Os europeus vinham em uma crescente, sua torcida estava empolgada e lotou o Rasunda. Mesmo assim não foram páreos e uma surpreendente goleada por 5 a 2 dos sul-americanos não só os credenciaram como favoritos, mas também cativou os fãs locais a apoiá-los.
Além das camisas azuis, Feola foi o responsável direto por mais uma surpresa brasileira, que teve papel decisivo diante dos suecos: sacou De Sordi para a entrada de Djalma Santos. O lateral-direito do São Paulo foi titular em todos os outros jogos, mas sentiu uma contusão no joelho de apoio na semifinal. E risco era uma coisa que o treinador da Seleção não queria correr na final. O certo é que o então jogador da Portuguesa atuou o suficiente para ser eleito como o melhor da posição na Copa.
Mas as coisas não aconteceram conforme o planejado. Mal o jogo começou e a esperança sueca ganhou força nos pés de Liedholm. Aos 3min, ele marcou um verdadeiro gol em câmera lenta. Recebeu passe enfiado, passou devagar por Orlando e não precisou correr para bater Bellini e acertar um chute cruzado à direita de Gilmar, abrindo o placar para os europeus. O que era um motivo para aumentar a confiança dos frios mandantes, que até então reagiam com timidez nas arquibancadas do Rasunda, foi mais um capítulo de superação daquela equipe, simbolizada por Didi, que em uma lentidão ainda maior atravessou o meio-campo caminhando a passos curtos. Antes de colocar a bola na marca, voltou-se a Zagallo e deu o recado: "nós vamos ganhar".
E o que se viu em seguida deixou claro que não era uma falsa profecia. Seis minutos depois, o meia do Botafogo lançou Garrincha. Impossível de marcá-lo, o ponta driblou com facilidade dois zagueiros e cruzou rasteiro para Pelé. O Rei teve tempo apenas de desviar a jogada para Vavá, que emendou um chute à queima-roupa sem chances para Svensson. Era o empate brasileiro.
O que se viu com o placar novamente em igualdade foi uma ampla superioridade brasileira. Djalma Santos anulava Skoglund, o craque sueco, e o meio-campo jogava como queria. Quase sempre o jogo buscava Pelé, que acertou o travessão em um arremate de longa distância. O coração bateu mais forte apenas em um lance, quando Skoglund aproveitou uma saída errada de bola e bateu por cobertura em um batido Gilmar. Zagallo apareceu para salvar em cima da linha. Entretanto, aos 32min, como em um replay do primeiro gol, Garrincha passou como quis pelos marcadores e cruzou rasteiro. Svensson não consegui segurar e Vavá desviou para virar o placar.
A Seleção foi para o intervalo com a torcida local aplaudindo. Eram outros tempos e a superioridade era tanta que narradores europeus já cantavam a vitória sul-americana. Daí para a goleada foi um caminho fácil. Aos 10min da etapa final, uma obra de arte. Orlando e Zito trocaram passes no meio-campo. De primeira, o volante lançou Didi, que emendou o jogo para Nilton Santos. Vavá correu para receber, mas o lateral preferiu seguir o jogo com Zagallo, que voltou ao futuro companheiro de equipe e esse cruzou. A bola caiu nos pés de Pelé. Gustavsson saiu para tentar o corte. Levou um chapéu do Rei que, sem deixar a bola cair, finalizou, anotando o segundo gol mais bonito da história das Copas segundo a própria Fifa e exaustivamente repetido em filmes e documentários sobre o Mundial e o ídolo santista.
Símbolo máximo de Seleção Brasileira, Zagallo deixou a sua marca. Aos 23min, recebeu lançamento de Didi e invadiu a área. Sentindo a aproximação do zagueiro, usou sua principal característica e dividiu a bola com o sueco, levando a melhor. Seguiu com o lance e, vendo o goleiro pular, arrematou por baixo, sacramentando a goleada.
O Brasil era o campeão mundial, mas faltou avisar a zaga. Aos 35min, Bellini e Orlando vacilaram e Liedhholm lançou Simonsson, que de primeira e livre, marcou mais um de honra. Nada que assustasse Pelé. O banco já se abraçava e dirigentes choravam quando, no último minuto, o Rei tabelou com Zagallo e correu para a área. Veio o cruzamento e o franzino adolescente obteve de vez a coroa de melhor da história ao saltar junto da marcação e encobrir Svensson.
A nação que oito anos antes chorara de tristeza, agora derramava lágrimas de alegria. Os jogadores suecos aplaudiam o time brasileiro, que a essa altura dizimara qualquer ranço de rivalidade e acumulava idolatria. Entre eles o craque francês Kopa, que fez questão de assistir a partida, e o escritor espanhol Pedro Escartin, que em seu livro Suécia: apoteosis de Brasil, classificou a equipe como "algo novo e maravilhoso, onde não faltam arte, eficiência e conjunto". Pelé, classificado como o monstro genial de 17 anos, caía no choro dentro do gramado e era consolado pelos companheiros. O grupo deu a volta olímpica segurando a bandeira do país-sede, ovacionado de pé pelo estádio. Mas um fã em especial chamou a atenção, o rei sueco Gustavo Adolfo, que voltou ao gramado antes da cerimônia de premiação para felicitar os campeões. Procurava um jogador em especial, Garrincha, que retrucou o protocolar cumprimento monárquico da forma mais brasileira possível: "E aí meu chapa, tudo bem?". O dentista da delegação, Mário Trigo, não ficou atrás: "Obrigado 'king'".
Ao receber a taça das mãos do rei Adolfo, Bellini ainda teve tempo de imortalizar mais um gesto. A pedido dos fotógrafos que não conseguiam registrar a cena, levantou a Jules Rimet acima da cabeça. O gesto é copiado até hoje, em qualquer esporte, sempre que um troféu é obtido. Nada mais imponente para uma Seleção que entrou para a história e ostenta a singular marca de ser a única equipe não-européia a ter vencido uma Copa do Mundo no Velho Continente.
- OS JOGADORES BRASILEIROS
Goleiros:
3 - Gilmar - Corinthians
1 - Castilho - Fluminense
Laterais:
4 - Djalma Santos - Portuguesa
12 - Nilton Santos - Botafogo
14 - De Sordi - São Paulo
16 - Oreco - Corinthians
Zagueiros:
13 - Mauro - São Paulo
2 - Bellini (Capitão) - Vasco da Gama
15 - Orlando - Vasco da Gama
9 - Zózimo - Bangu
Meio-campistas:
6 - Didi - Botafogo
5 - Dino - São Paulo
19 - Zito - Santos
8 - Moacir - Flamengo
Atacantes:
11 - Garrincha - Botafogo
7 - Zagallo - Botafogo
20 - Vavá - Vasco da Gama
22 - Pepe - Santos
10 - Pelé - Santos
17 - Joel - Flamengo
18 - Mazzola - Palmeiras
21 - Dida - Flamengo
Técnico: Vicente Feola
- A CAMPANHA E OS GOLS DO BRASIL
1ª Fase - Grupo 4:
Uddevalla - Brasil 3x0 Áustria - Gols: Mazzola (2) e Nilton Santos
Gotemburgo - Brasil 0x0 Inglaterra
Gotemburgo - Brasil 2x0 União Soviética - Gols: Vavá (2)
Quartas de Final:
Gotemburgo - Brasil 1x0 País de Gales - Gol: Pelé
Semifinais:
Estocolmo - Brasil 5x2 França - Gols: Pelé (3), Vavá e Didi
Final:
Estocolmo - Brasil 5x2 Suécia - Gols: Vavá (2), Pelé (2) e Zagallo
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